segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


Simbolismo do número 40 na Bíblia

Por que quarenta dias?
Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material e o quarenta é a duração de uma geração. Em quarenta dias ou quarenta anos tudo se renova.
Quarenta foram os dias em que Moisés recebeu das mãos de Deus as Leis e Mandamentos que orientaram o povo escolhido a deixar para trás a escravidão e a viver a vida de liberdade total.
Quarenta foram os dias em que Jesus esteve no deserto, entrando ali como simples e humilde carpinteiro e de lá saindo como o Salvador da humanidade.
Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia.
A Quaresma evoca as passagens que se referem ao número quarenta. Dos quarenta dias do dilúvio: “Durante quarenta dias caiu o dilúvio sobre a terra. [...] No fim de quarenta dias, Noé abriu a clarabóia que tinha feito na arca, e soltou o corvo, que ia e vinha, esperando que as águas secassem sobre a terra.” (Gn 7,17; 8,6 ). Dos quarenta anos de peregrinação do povo israelita pelo deserto: “A ira de Yahweh se inflamou contra Israel, e ele o fez andar errante pelo deserto durante quarenta anos, até que desaparecesse aquela geração que fez o que Yahweh reprova.” (Nm 32,13; 14,33; Dt 8,2; 29,4; etc.).
Dos quarenta dias e quarenta noites de Moisés no monte Sinai, também conhecido como Monte Horeb ou Jebel Musa, que significa “Monte de Moisés” em árabe: “Moisés ficou ali com Deus, o Senhor, quarenta dias e quarenta noites e durante esse tempo não comeu nem bebeu nada. Ele escreveu nas placas de pedra as palavras da aliança, isto é, os dez mandamentos.” (Ex 34,28; 24,18; Dt 9,9-11; 10,10).
Dos quarenta dias e quarenta noites da caminhada do profeta Elias para a montanha: “Elias se levantou, comeu, bebeu, e sustentado pela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus.” (1Rs 19,8). Dos quarenta dias que foi o tempo que Yahweh deu a Jonas para destruir a cidade de Nínive, se esta não se arrependesse de seus pecados: “Jonas entrou na cidade e começou a percorrê-la, caminhando um dia inteiro. Ele dizia: ‘Dentro de quarenta dias a cidade será destruída.” (Jn 3,4).
Dos quarenta anos que foi o tempo que Davi reinou em Israel: “Davi foi rei em Israel durante quarenta anos; reinou sete anos em Hebron, e trinta e três anos em Jerusalém.” (1Rs 2,11). Dos quarenta dias e quarenta noites em que Jesus jejuou no deserto antes de começar o seu ministério: “Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome.” (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2).
Dos quarenta dias depois da Ressurreição acontece a Ascensão de Jesus: “Foi aos apóstolos que Jesus, com numerosas provas, se mostrou vivo depois de sua paixão: durante quarenta dias apareceu a eles, e falou-lhes do Reino de Deus. [...] Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles.” (At 1,3.9).
Das quarenta chicotadas previstas pela Lei de Moisés ao infrator que tenha contrariado alguma recomendação da Lei: “Podem açoitá-lo até quarenta vezes”. (Dt 25,3). Das quarenta chicotadas menos uma que Paulo recebeu por cinco vezes para ser punido por difundir a mensagem de Jesus e do Reino de Deus: “Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um.” (1Cor 11,24).
Tendo como início o número quatro, podemos citar ainda os quatrocentos anos de escravidão do povo israelita no Egito: “Ai nessa terra eles ficarão como escravos e serão oprimidos durante quatrocentos anos.” (Gn 15,13), e mais: “A estada dos filhos de Israel no Egito durou quatrocentos e trinta anos. No mesmo dia em que terminaram os quatrocentos e trinta anos, os exércitos de Israel saíram do Egito”. (Ex 12,40-41).
Esses períodos vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo de destaque que vai acontecer: a concretização da conversão, a passagem da escravidão para a liberdade; a mudança de vida e de mentalidade, como dizia João Batista: “Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo”. (Mt 3,2), o que foi ratificado por Jesus: “Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo.” (Mt 4,17).
A Igreja propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade.
Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade.

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017


Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom
A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

3. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).
Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.
Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.
Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).
Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro de 2016.

Festa do Evangelista São Lucas

FRANCISCO




Papa: reconhecer-se humilde, ponto de partida para Deus agir




"Reconhecendo-nos frágeis vasos de barro, pecadores necessitados de misericórdia, o tesouro de Deus se derrama sobre nós" - AP

Cidade do Vaticano  – Na tarde deste domingo, 26 de fevereiro, o Papa Francisco realizou uma visita histórica, ao participar das celebrações dos 200 anos da Paróquia anglicana All Saints, em Roma. Foi o primeiro Pontífice a entrar no templo.

Eis a íntegra do discurso do Santo Padre:

“Queridos irmãos e irmãs,
Vos agradeço pelo gentil convite em celebrar juntos este aniversário paroquial. Transcorreram mais de duzentos anos desde que realizou-se o primeiro serviço litúrgico público anglicano em Roma, para um grupo de residentes ingleses que viviam nesta parte da cidade. Muita coisa mudou desde então, em Roma e no mundo. No decorrer destes dois séculos, muito também mudou entre anglicanos e católicos, que no passado olhavam-se com suspeita e hostilidade; hoje, graças a Deus, nos reconhecemos como verdadeiramente somos: irmãos e irmãs em Cristo, mediante o nosso batismo comum. Como amigos e peregrinos desejamos caminhar juntos, seguir juntos o nosso Senhor Jesus Cristo.

Vocês me convidaram para abençoar o novo ícone de Cristo Salvador. Cristo nos olha, e o seu olhar sobre nós é um olhar de salvação, de amor e de compaixão. É o mesmo olhar misericordioso que atravessou o coração dos Apóstolos, que iniciaram um novo caminho de vida nova para seguir e anunciar o Mestre. Nesta santa imagem, Jesus, olhando-nos, parece dirigir também a nós um chamado, um apelo: “Estás pronto a deixar alguma coisa do teu passado por mim? Queres ser mensageiro de meu coração, de minha misericórdia?”.

A misericórdia divina é a fonte de todo o ministério cristão. O diz o Apóstolo Paulo, dirigindo-se ao Coríntios, na leitura que acabamos de ouvir. Ele escreve: “Este é o nosso ministério, nós o temos pela misericórdia de Deus; por isto, não perdemos a coragem” (2 Cor 4,1).

Com efeito, São Paulo nem sempre teve uma relação fácil com a comunidade de Corinto, como demonstram as suas cartas. Houve também uma visita dolorosa a esta comunidade e palavras inflamadas foram trocadas por escrito. Mas esta passagem mostra o Apóstolo que supera as divergências do passado e, vivendo o seu ministério segundo a misericórdia recebida, não se resigna diante das divisões, mas trabalha pela reconciliação. Quando nós, comunidade de cristãos batizados, nos encontramos diante de desacordos e nos colocamos diante do rosto misericordioso de Cristo para superá-los, fazemos precisamente como fez São Paulo em uma das primeiras comunidades cristãs.

Como se compromete Paulo nesta missão, de onde começa?  Da humildade, que não é somente uma bela virtude, é uma questão de identidade: Paulo se compreende como um servidor, que não anuncia a si mesmo, mas Cristo Jesus Senhor. E cumpre este serviço, este ministério, segundo a misericórdia que lhe foi dada; não com base em sua bravura e contando com suas forças, mas na confiança com que Deus o olha e apoia, com misericórdia a sua fraqueza. Tornar-se humilde é sair do centro, reconhecer-se necessitado de Deus, mendigo de misericórdia: é o ponto de partida para que seja Deus a operar.

Um Presidente do Conselho Ecumênico das Igrejas descreve a evangelização cristã como “um mendigo que diz a outro mendigo onde encontrar o pão”. Acredito que São Paulo teria aprovado. Ele se sentia “com fome de misericórdia” e a sua prioridade era compartilhar com os outros o seu pão: a alegria de ser amados pelo Senhor e de amá-lo.

Este é o nosso bem mais precioso, o nosso tesouro, e neste contexto Paulo introduz uma de suas imagens mais conhecidas, que podemos aplicar a todos nós: “Temos este tesouro em vasos de barro”. Somos somente vasos de barro, mas guardamos dentro de nós o maior tesouro do mundo. Os Coríntios sabiam bem que era tolice preservar algo de precioso em vasos de barro, que eram baratos, mas se quebravam facilmente. Ter dentro deles algo de precioso significava risco de perdê-lo. Paulo, pecador, agraciado, humildemente reconhece ser frágil como um vaso de barro. Mas experimentou e sabe que precisamente ali, onde a miséria humana se abre à ação misericordiosa de Deus, o Senhor opera maravilhas. Assim opera o “extraordinário poder de Deus”.

Confiante neste humilde poder, Paulo serve o Evangelho. Falando de alguns adversários seus em Corinto, os chamou “super-apóstolos”, talvez, e com uma certa ironia, porque o tinham criticado pelas suas fraquezas, das quais eles se consideravam isentos”. Paulo, pelo contrário, ensina que somente reconhecendo-nos frágeis vasos de barro, pecadores sempre necessitados de misericórdia, o tesouro de Deus se derrama em nós e sobre os outros mediante nós. De outra forma, seremos somente cheios de tesouros nossos, que se corrompem e apodrecem em vasos aparentemente bonitos. Se reconhecemos a nossa fraqueza e pedimos perdão, então a misericórdia restauradora de Deus resplandecerá dentro de nós e será também visível de fora; os outros irão experimentar de alguma forma, através de nós, a beleza gentil da face de Cristo.
A um certo ponto, talvez no momento mais difícil com a comunidade de Corinto, Paulo cancelou uma visita que havia programado, renunciando também às ofertas que teria recebido. Existiam tensões na comunhão, mas não tiveram a última palavra. A relação voltou ao normal e o Apóstolo aceitou a oferta para o sustento da Igreja de Jerusalém.

Os cristãos de Corinto voltaram a trabalhar junto às outras comunidades visitadas por Paulo, para apoiar quem era necessitado. Este é um sinal forte de comunhão restabelecida. Também a obra que a vossa comunidade desenvolve junto a outras de língua inglesa aqui em Roma, pode ser vista desta forma. Uma comunhão verdadeira e sólida cresce e se robustece quando se age juntos por quem tem necessidade. Por meio do testemunho concorde da caridade, a face misericordiosa de Jesus torna-se visível na nossa cidade.

Católicos e anglicanos, somos humildemente agradecidos porque, depois de séculos de recíproca desconfiança, somos agora capazes de reconhecer que a fecunda graça de Cristo está em ação também nos outros. Agradecemos ao Senhor porque entre os cristãos cresceu o desejo de uma maior proximidade, que se manifesta no rezar juntos e no comum testemunho ao Evangelho, sobretudo por meio das várias formas de serviço. Às vezes, o progresso no caminho rumo à plena comunhão pode parecer lento e incerto, mas hoje podemos tirar um encorajamento deste nosso encontro. Pela primeira vez um Bispo de Roma visita a comunidade de vocês. É uma graça e também uma responsabilidade: a responsabilidade de fortalecer as nossas relações em louvor a Cristo, a serviço do Evangelho e desta cidade.

Encorajando-nos uns aos outros a tornar discípulos sempre mais fieis a Jesus, sempre mais livres dos respectivos preconceitos do passado e sempre mais desejosos de rezar por e com os outros. Um bonito sinal desta vontade é a “parceria” concretizada entre a vossa paróquia All Saints e a católica, de Todos os Santos. Que os Santos de cada Confissão cristã, plenamente unidos na Jerusalém celeste, nos abram o caminho para percorrer aqui todas as possíveis vias de um caminho cristão fraterno e comum. Onde nos reunimos em nome de Jesus, ali Ele está presente, e dirigindo o seu olhar de misericórdia, chama a trabalharmos pela unidade e pelo amor. Que o rosto de Deus resplandeça sobre nós, sobre vossas famílias e sobre toda a comunidade!”.

domingo, 26 de fevereiro de 2017


O Papa Francisco Santo Padre recebeu os participantes no Curso de Formação para Párocos, promovido pelo Tribunal da Rota Romana




Da redação, com Rádio Vaticano
Neste sábado, 25, o Papa Francisco Santo Padre recebeu na Sala Clementina do Vaticano, os participantes no Curso de Formação para Párocos, promovido pelo Tribunal da Rota Romana.
O Curso versou sobre o tema do “novo Processo matrimonial”, discutido e proposto pelo Sínodo dos Bispos sobre o “Matrimônio e a Família”, que se realizou no Vaticano em outubro de 2015.
Partindo precisamente da Exortação Apostólica pós-sinodal “Amoris laetitia”, o Santo Padre dirigiu-se aos Párocos dizendo que foi bom, que “por meio desta iniciativa de estudo, puderam aprofundar tal matéria, pois são sobretudo vocês que a aplicam concretamente no cotidiano contato com as famílias”.
“Na maior parte dos casos, vocês são os primeiros interlocutores dos jovens que desejam formar uma nova família. A vocês se dirigem aqueles casais que, por causa dos seus sérios problemas familiares e crises matrimoniais, pedem indicações para o processo de nulidade do matrimônio. Por isso, vocês são chamados a ser companheiros de viagem deles, acompanhando-os e encorajando-os”.
Sim, vocês devem dar testemunho da graça do Sacramento do Matrimônio e do bem primordial da família, célula vital da Igreja e da sociedade, mediante Cursos de preparação ao Matrimônio e encontros pessoais ou comunitários, explicou o Pontífice.
Mas, ao mesmo tempo, devem encorajar os casais em dificuldade, em atitude de escuta e compreensão. Em relação aos jovens casais, que preferem conviver, sem se casar, Francisco disse: “Em nível espiritual e moral, eles estão entre os pobres e os pequeninos, para os quais a Igreja deve ser Mãe, sem abandoná-los, mas aproximá-los e cuidar deles. Estes casais também são amados pelo Coração de Jesus. Por isso, tenham ternura e compaixão deles. Isto faz parte da obra dos párocos na promoção e defesa do Sacramento do Matrimônio”.
O Santo Padre citou o bem-aventurado Paulo VI, que dizia: “A paróquia é a presença de Cristo na plenitude da sua função salvadora; ela é a casa do Evangelho e da verdade, a escola de Nosso Senhor.”
Francisco concluiu seu pronunciamento, agradecendo aos Párocos pelo seu empenho de anunciar o Evangelho da Família e invocando o Espírito Santo para que os ajude a ser ministros de paz e conciliação em meio ao Povo de Deus, especialmente entre os mais frágeis e necessitados da solicitude pastoral. 


Tempo da Quaresma

Ter-se-á sempre em vista que a Quaresma constituía preparação para o Tríduo Pascal da Paixão-Morte, Sepultura e Ressurreição do Senhor Jesus, celebrado de quinta-feira à noite até o domingo da Ressurreição.

A Quarta-feira de Cinzas abre este tempo de conversão e de penitência, fazendo a proposta da observância quaresmal da oração, do jejum e da esmola.

Seguem todos os anos os dois domingos com temática fixa, variando apenas conforme os Evangelistas do ano. No 1º Domingo da Quaresma: As tentações de Jesus no deserto; 2º Domingo: a transfiguração do Senhor.

Jesus é o modelo da vida de penitência dos cristãos. O Jesus que jejua, o Jesus que se dedica à oração, deve ser visto à luz do Cristo transfigurado. Toda a caminhada da conversão dos cristãos só tem sentido à luz da ressurreição pregustada no Tabor.

A partir do 3º Domingo temos uma diversificação, conforme os ciclos do Ano A, B e C.

O Ano A apresenta a temática batismal. O Batismo será revivido no Tríduo pascal e especialmente na Vigília.

Se isso é verdade todos os anos, vem tematizado no Ano A. Utilizam-se os Evangelhos de São João. No 3º Domingo: o poço da samaritana; no 4º Domingo: o cego de nascença junto à piscina de Siloé. No 5º Domingo: a ressurreição de Lázaro. As leituras do Antigo Testamento, em harmonia com os evangelhos, apresentam os grandes lances da história da salvação. As leituras do Apóstolo realçam também a temática batismal.

No Ano B, de Marcos, sobressai o mistério da renovação da pessoa humana em Cristo e por Cristo, através da penitência. Seguindo o Cristo no mistério da cruz, o cristão participará de sua ressurreição. Os evangelhos são novamente de João: a restauração do Templo (o corpo de Cristo), Jo 21,13-25; o Cristo exaltado na cruz para a salvação do mundo, Jo 3,14-21; o grão de trigo que precisa morrer para produzir fruto, Jo 12, 20-33. As leituras apresentam tópicos da aliança de Deus com seu povo.

HOMILIA: Coloque seus bens materiais e seus dons a serviço de Deus


Coloque seus bens materiais e seus dons a serviço de Deus, dos irmãos e do Evangelho para um mundo mais fraterno e justo.


“Não podeis servir a Deus e à riqueza. Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida” (Mateus 6, 24-25).

A Palavra de Deus, semeada em nossos corações hoje, nos dá a graça de meditar sobre dois contextos importantes para a nossa vida. O primeiro contexto é: a quem nós servimos? A quem nós estamos a serviço nesta vida, a quem entregamos e dispomos o nosso coração, porque é a quem servimos que colocamos o nosso coração.

Portanto, se queremos servir a Deus, nós não podemos ser escravos do dinheiro nem dominados por ele. Ao contrário, o dinheiro é que tem de estar a nosso serviço e nós é que temos de dominá-lo. Temos que colocar o dinheiro, as riquezas e as posses que temos – sejam elas poucas ou muitas – a serviço do bem, do próximo e do Evangelho para um mundo mais fraterno e justo.

Não podemos ser reféns daquilo que o dinheiro faz com a vida das pessoas. Há muita gente sofrida, machucada, deprimida e que perdeu o sentido da vida porque perdeu tudo o que tinha ou porque não acumulou tudo o que queria. Pessoas escravas da posse, no sentido mais negativo da palavra “dinheiro”, escravas da avareza, do desejo da posse e de sempre ter mais e nunca estar satisfeitas com o que têm.

Confiar em Deus é a segunda dinâmica a que a Palavra de Deus nos chama a nos dispor. O mesmo Deus que provém todos os bens da natureza há de cuidar de nós. Talvez alguém se confunda e queira entender que “providência de Deus” é estar de braços cruzados esperando as coisas acontecerem, porque do céu cairá o “maná” e o “manjar” para ele sobreviver. Não é isso. A providência de Deus é abençoar o trabalho justo e digno que fazemos; a providência de Deus é multiplicar, é fazer render o nosso empenho para poder dar o melhor de nós a nossa casa.

Muitas vezes, o dinheiro que temos não rende nada. Conheço pessoas que ganham tão pouco e este rende tanto, e também conheço pessoas que ganham muito, mas o muito não dá para nada. A providência de Deus acontece em nossa vida quando permitimos Deus abençoar, cuidar, dispor e prover do que temos não só para o nosso bem, mas para sermos fraternos e para que façamos a graça de Deus também acontecer para outros.

Não confundamos providência com o nós termos algo e o outro não ter nada. Não confundamos providência com poder acumular, ter muitas coisas e nos sentir abençoados, acreditando que aquele que não tem é o amaldiçoado.

A providência é sabermos dispor do que temos para Deus e permitir que Ele o abençoe para usar para o nosso bem, para o bem dos nossos e para o próximo que Deus coloca ao nosso lado!




Deus abençoe!
Padre Roger Araújo

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Psicólogo destaca diferença entre conceitos de saúde e bem-estar

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017







Em nova coluna, especialista irá aprofundar temas sobre saúde e bem-estar

Quem tem saúde tem bem-estar?


saúde e bem estar

“O que importa é ter saúde”! Geralmente esta é uma frase presente na mente da maioria das pessoas, esta ideia de que tendo saúde “do resto a gente corre atrás”, não é verdade? Contudo, precisamos nos perguntar qual é o conceito de saúde que temos em mente, o que é ter saúde? Quantas pessoas estando fisicamente perfeitas, não veem sentido na vida e quantas pessoas estando fisicamente debilitadas parecem transparecer uma vitalidade admirável aos olhos de quem as conhece. Saúde e bem-estar são conceitos que podem representar muito mais do que está presente no senso comum.

Existem algumas normas para se encontrar uma definição de saúde. Uma é a norma subjetiva que depende de como a pessoa se sente em relação a alguma dor ou mal-estar, a norma estatística que depende da frequência com que um fenômeno ocorre na população, a norma funcionalista que é aquela que está relacionada às funções relevantes para a vida, a social que é definida através de um consenso sobre os valores sociais e a especialista que é definida por pessoas que estudaram os temas da saúde, como médicos e psicólogos, por exemplo.

Descobertas

Antigamente, nossos avós davam nomes diferentes para algumas doenças, muitas pessoas morriam sem saber explicar qual era a doença que haviam adquirido. Com o passar do tempo a medicina evoluiu e muito desta evolução aconteceu principalmente no século passado, descobrimos novas doenças e desenvolvemos novos medicamentos. Foi também no século passado que a psicologia se desenvolveu oferecendo-nos uma gama ainda maior para entender o conceito de saúde. O que para muitos poderia ser uma tristeza profunda antigamente ou até mesmo algo relacionado a problemas espirituais, hoje a psicologia nos ajuda a entender como diferentes aspectos de uma depressão. 

Descobrimos conceitos que outrora eram completamente desconhecidos para nossos antepassados, ansiedade generalizada, síndrome do pânico, transtornos alimentares, déficit de atenção, bulimia, anorexia, síndrome do pensamento acelerado, quantas são os relativamente novos conceitos de saúde!

A psicologia não apenas descobriu transtornos, mas também os caminhos possíveis para suas causas e tratamentos. O conceito de saúde está tão intimamente ligado à nossa forma de vida diária que nos afeta diretamente em diferentes situações. Quando recebo familiares de pessoas que enfrentam problemas psicológicos em meu consultório, é bem comum perceber o quanto eles mudam a forma de tratarem a pessoa em casa, depois que compreendem melhor que o que ela enfrenta não é simplesmente uma falta de vontade na vida e sim uma depressão, por exemplo, ou quando os familiares compreendem que a constante mudança de humor da pessoa em casa não se deve a uma falta de respeito ou má criação, mas ela foi diagnosticada com bipolaridade e precisa ser tratada. 

Desde o chefe que tem vício de drogas ou de medicamentos, ou que enfrenta crises de ansiedade até o atendente da loja que pode estar passando por um luto ou enfrentando crises de transtorno obsessivo, todo o mundo ao nosso redor pode ser compreendido melhor quando compreendemos o que pode ser ou não saudável.
Como teria sido a história, por exemplo, se no passado as pessoas soubessem identificar personalidades psicopatas antes de as elegerem seus líderes políticos, religiosos ou sociais?

Possivelmente, muitas guerras não teriam acontecido. Quantas relacionamentos foram desfeitos por que não se compreendia que um ou outro poderia estar passando por momentos de profundo estresse e havia desenvolvido a síndrome de Burnout, por exemplo!

Superação

A possibilidade de bem-estar está mais ao nosso alcance do que podemos imaginar. O cientista Stephen Hawking que sofre de uma rara doença que paralisa seus músculos e limita profundamente seus movimentos representa um dos grandes exemplos de como uma pessoa pode continuar encontrando sentido na vida e contribuindo para o desenvolvimento humano, mesmo estando fisicamente enferma. Quantas são as pessoas que presas à diferentes limitações físicas realizam grandes obras em suas vidas ou decidem direcionar suas energias para fazer o bem para as pessoas ao seu redor! Certamente, mesmo enfermas estas pessoas transmitem com seu testemunho de vida, uma alegria que muitas pessoas consideradas fisicamente saudáveis não experimentam. Seria isto o que chamamos de bem-estar?



elisonsantos* Élison Santos, Psicólogo e Palestrante. Atende adultos e adolescentes e é Terapeuta de Casais em São José dos Campos. Realiza aconselhamento psicológico Online através do Skype. É especialista em Análise Existencial e Logoterapia pela Pontifícia Universidade Católica de Curitiba. Oferece Cursos Online sobre relacionamento e comportamento humano em sua página www.elisonsantos.com. É participante do Programa Trocando Ideias.